Testemunho > Uma ajuda para a auxiliar de enfermagem

Interrompi voluntariamente meus estudos na faculdade de Letras para viver num vilarejo de montanha com o homem que iria se tornar meu marido e o pai de meus 3 filhos. Nós nos separamos depois de 27 anos de vida comum, e esse divórcio me impulsionou a uma realidade diametralmente oposta à minha vivência. Sem recursos financeiros, aceitei vários contratos de trabalho, até o dia em que guiada por uma amiga com câncer eu me apresentei a um concurso de auxiliar de enfermagem. Assim que obtive meu diploma, eu comecei a trabalhar num serviço de geriatria.

Da fragilidade surge a transformação

No início do meu trabalho, esse serviço me pareceu difícil, assustador. Eu me sentia demasiado pequena e indiferente diante da dor e dos problemas da idade. Nos primeiros dias foi uma tortura. O medo fazia parte de mim, me fazia duvidar de cada gesto. Meu corpo sentia um tal cansaço que eu não conseguia pensar em continuar. Eu até tive a falsa certeza de não ser suficientemente forte, amorosa e verdadeira para este trabalho

Depois, cada dia com eles se tornou progressivamente uma aventura, uma descoberta. Os mais doentes, os mais dependentes, os menos conscientes têm uma linguagem além das palavras que abre a escuta do coração. A humildade começa a fazer parte do meu cotidiano, quando tenho de aprender a dar através do gesto preciso, da doçura dos movimentos, do tato terno. Eu me vejo entre eles como uma criança que se tornou sua mãe: eu me sinto tão frágil, e desta fragilidade surge a transformação. Eu a ofereço em partilha, e seus olhos se põem então a se abrir, eles vêm até mim, tentando me ajudar como podem, erguendo seus corpos para que eu tenha mais facilidade de pôr a proteção, fazendo um esforço sobre-humano para se virar. Por vezes eu não sei mais o que fazer e, de repente, eles fazem o gesto que eu imploro em oração. Minhas imperfeições me aproximam deles e a confiança nos une. Então eu sei o que significa partilhar. Peço a Deus para me dar a força física para me permitir continuar.

Falar de coração a coração

É uma profissão muito dura e cansativa, mas ao mesmo tempo me dá os mais belos presentes possíveis. Alguns deles, muito agitados por um tipo de demência perdem sua agressividade, se tornam doces e entre nós se cria algo muito forte. Outros têm a doença de Alzheimer: sua cabeça está longe, seus corpos são pesados, e eu me pergunto como ajudá-los. De repente acontece uma graça, eles sorriem e é sua alma que brota à superfície do seu olhar. Eu lhes falo de coração a coração. Rezo por eles e assim chegamos a um contato extraordinário, que me nutre e que os nutre, pois eles se sentem amados. O cansaço que eu sinto também me ajuda a me entregar mais a Deus, a abandonar minhas apreensões ou meus desgostos, para enxergar suas verdadeiras belezas, muito além de suas aparências.

Julia